Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a uma verdadeira explosão das plataformas de apostas esportivas online — conhecidas popularmente como BETs. Com a popularização dos aplicativos e o patrocínio massivo de times de futebol, artistas e influenciadores, o jogo se tornou parte do cotidiano de milhões de jovens e adultos.
Mas, por trás da promessa de “fácil diversão” e “dinheiro rápido”, surgem sinais preocupantes. Estudos recentes publicados na Revista Debates em Psiquiatria em 2025 investigaram os impactos desse fenômeno no comportamento humano e na saúde mental, trazendo dados alarmantes que precisam ser discutidos.
Um dos artigos analisou a prevalência do uso de apostas esportivas entre brasileiros e encontrou que os jovens adultos, principalmente homens de 18 a 30 anos, são os mais vulneráveis. Esse grupo combina maior acesso à tecnologia, impulsividade própria da faixa etária e intensa exposição às campanhas de marketing das plataformas.
Além disso, os pesquisadores chamam atenção para a normalização das BETs no esporte: quando torcer pelo time e apostar nele passam a caminhar juntos, cria-se um ambiente de alto risco para o desenvolvimento de dependência.
O segundo artigo mergulhou nos mecanismos neurobiológicos do comportamento de aposta. O estudo mostrou que o uso compulsivo de plataformas de BETs ativa os mesmos circuitos cerebrais de recompensa envolvidos em vícios como drogas e álcool, especialmente o sistema dopaminérgico mesolímbico.
Essa hiperestimulação leva a um ciclo de:
Euforia inicial com pequenas vitórias;
Reforço dopaminérgico, que aumenta o desejo de continuar jogando;
Perda de controle, com dificuldade de interromper a atividade;
Consequências negativas como ansiedade, irritabilidade, depressão e endividamento.
Ou seja: não se trata de “falta de força de vontade”. Existe um componente neuroquímico e comportamental que precisa ser reconhecido como problema de saúde.
Os artigos destacam uma série de impactos graves associados ao uso abusivo de BETs:
Aumento de sintomas ansiosos e depressivos;
Risco de endividamento e impacto financeiro familiar;
Maior incidência de ideação suicida em apostadores compulsivos;
Comprometimento do desempenho acadêmico e profissional;
Prejuízos em relacionamentos interpessoais, com isolamento e conflitos.
Segundo os autores, os danos psicológicos vão muito além da perda financeira: tratam-se de alterações que podem comprometer toda a trajetória de vida do indivíduo.
A crescente popularização das BETs levanta questões urgentes para as áreas de saúde pública, regulação e psiquiatria clínica.
Os estudos concluem que:
É preciso reconhecer o vício em apostas como um transtorno comportamental comparável a outras formas de dependência;
Devem ser implementadas políticas regulatórias mais rígidas, como restrições de publicidade voltada a jovens;
A sociedade precisa discutir estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento especializado.
Para os profissionais de saúde mental, o desafio é identificar sinais precoces de dependência em pacientes jovens e propor intervenções que combinem psicoterapia, abordagens familiares e, quando necessário, tratamento medicamentoso.
As apostas esportivas online deixaram de ser um fenômeno isolado para se tornar uma questão social e de saúde mental. Os estudos recentes reforçam que o uso compulsivo das BETs não pode ser reduzido a “má sorte” ou “falta de disciplina”: trata-se de um comportamento com bases neurobiológicas claras e consequências devastadoras.
Reconhecer o problema é o primeiro passo para combatê-lo.
Informar, regular e oferecer tratamento adequado são medidas urgentes para evitar que uma geração inteira seja tragada por essa nova forma de dependência.
Revista Debates em Psiquiatria. (2025). Apostas esportivas e saúde mental: panorama epidemiológico no Brasil. Disponível em: revistardp.org.br/revista/article/view/1496
Revista Debates em Psiquiatria. (2025). Mecanismos neurobiológicos da dependência em apostas esportivas online. Disponível em: revistardp.org.br/revista/article/view/1405