A depressão resistente ao tratamento é um dos maiores desafios da psiquiatria contemporânea. Estima-se que até 30% dos pacientes com transtorno depressivo maior não respondam de forma satisfatória às terapias convencionais, mesmo após múltiplas tentativas com antidepressivos. Esse grupo de pacientes, além de conviver com intenso sofrimento emocional, apresenta maior risco de suicídio, hospitalizações recorrentes e incapacidade funcional.
Diante desse cenário, terapias inovadoras vêm sendo estudadas e a cetamina, uma molécula conhecida há décadas na anestesiologia, tem se destacado como uma das maiores promessas no tratamento da depressão grave e resistente.
Em 2025, um grupo de pesquisadores brasileiros liderados pelo Dr. Humberto Müller, PhD, apresentou dados inéditos sobre o uso subcutâneo da cetamina (S-ketamina) durante o Annual Meeting da American Psychiatric Association (APA), realizado em Los Angeles. Este é um marco importante, pois leva evidências nacionais para a maior comunidade científica de psiquiatria do mundo.
O trabalho contou com 40 pacientes diagnosticados com episódios depressivos graves e resistentes, submetidos a um protocolo de 12 sessões ao longo de 6 semanas.
O diferencial foi a via de administração: S-ketamina subcutânea em regime ambulatorial, sempre sob supervisão médica. Essa forma de aplicação é considerada mais prática e acessível do que a infusão intravenosa, geralmente utilizada em protocolos internacionais.
Para mensuração dos resultados, os sintomas foram avaliados por meio do Inventário de Depressão de Beck (BDI), uma das ferramentas mais reconhecidas e validadas mundialmente para aferição da gravidade dos sintomas depressivos.
Esse desenho metodológico permitiu não apenas avaliar a eficácia clínica, mas também a segurança e viabilidade do uso da cetamina em um contexto de prática médica real — fora do ambiente controlado de pesquisas altamente restritivas.
Os resultados chamam atenção pela magnitude:
32,4% dos pacientes apresentaram resposta robusta (redução ≥50% no BDI);
51,3% tiveram resposta parcial (redução entre 25–49%);
Apenas 16,2% não responderam ao tratamento.
Isso significa que mais de 80% dos pacientes apresentaram melhora significativa em poucas semanas, um índice de resposta altamente relevante para um grupo de pacientes já refratários às terapias convencionais.
Esses achados reforçam o potencial da cetamina como uma alternativa viável e eficaz, especialmente em casos graves, em que o sofrimento emocional é intenso e os riscos associados, elevados.
A análise detalhada mostrou reduções médias de:
44,6% nos sintomas afetivo-cognitivos, relacionados a tristeza, desesperança, ruminação e perda de interesse.
38,7% nos sintomas vegetativo-somáticos, como alterações de sono, fadiga e sintomas físicos.
Esse padrão indica que a cetamina atua de maneira ampla e multifacetada, impactando tanto as dimensões emocionais quanto os aspectos somáticos da depressão.
Ou seja, não apenas melhora o humor, mas também contribui para a recuperação da energia e da funcionalidade diária.
O estudo brasileiro contribui de forma única para a literatura científica por três razões principais:
Cenário real de prática clínica – diferente de ensaios controlados em ambiente altamente regulado, este trabalho mostra que a cetamina pode ser aplicada com segurança em clínicas ambulatoriais.
Via subcutânea acessível – mais prática, com menor custo operacional e logística mais simples que a infusão intravenosa.
Dados nacionais em um congresso internacional – reforça a importância da ciência brasileira no debate global sobre novos tratamentos para a depressão resistente.
Além disso, os resultados convergem com achados prévios internacionais que já demonstravam a rápida ação da cetamina no alívio de sintomas depressivos graves, mas acrescentam a perspectiva de viabilidade no contexto da psiquiatria brasileira.
A cetamina subcutânea se mostra como uma alternativa promissora, segura e eficaz para pacientes com depressão resistente. Embora sejam necessários estudos de maior escala e acompanhamento em longo prazo, os dados apresentados na APA 2025 já apontam para um avanço significativo.
Cada número neste estudo não representa apenas estatísticas, mas vidas que podem ser transformadas. Para muitos pacientes que não encontram resposta nos tratamentos convencionais, a cetamina pode significar a devolução da qualidade de vida, da esperança e da possibilidade de futuro.
📌 Referências
Daly, E. J., et al. (2019). Efficacy and Safety of Intravenous Esketamine in Treatment-Resistant Depression. JAMA Psychiatry.
Monteiro, D., Alves, G. S., Müller, H., et al. (2025). A Real-World Longitudinal Study With Subcutaneous Ketamine in a Brazilian Outpatient Sample With Severe and Resistant Depression: Preliminary Results. Apresentado no Annual Meeting of the American Psychiatric Association (APA 2025), Los Angeles, USA.