Nos últimos anos, um fenômeno silencioso tem ganhado força no Brasil e no mundo: o crescimento expressivo do tempo que crianças e adolescentes passam em frente às telas — celulares, tablets, computadores e TVs.
Esse aumento coincide com um crescimento significativo nos diagnósticos de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), levantando uma questão importante: há uma relação causal entre esses dois fenômenos? O que a ciência tem a dizer sobre isso?
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que:
Crianças menores de 2 anos não sejam expostas a telas;
Crianças de 2 a 5 anos utilizem dispositivos por no máximo 1 hora diária;
Crianças de 6 a 10 anos limitem o tempo a, no máximo, 2 horas por dia.
Porém, diversas pesquisas indicam que muitas crianças já ultrapassam quatro ou cinco horas diárias, inclusive durante fases cruciais do desenvolvimento neurológico.
Um dos estudos mais relevantes sobre o tema foi conduzido por Tamana et al. (2019), com 2.427 crianças acompanhadas longitudinalmente. Os dados mostraram que crianças com mais de 2 horas diárias de tela apresentaram um risco até 7,7 vezes maior de desenvolver sintomas compatíveis com TDAH.
Esses sintomas incluem:
Dificuldade de concentração
Agitação motora
Impulsividade
Queda no rendimento escolar
Esses achados foram reforçados por uma meta-análise recente de Qu et al. (2023), que associou aumento de tempo de tela com sintomas de desatenção e hiperatividade, mesmo em crianças sem diagnóstico prévio de TDAH.
O cérebro infantil ainda está em processo de maturação e é altamente influenciado por estímulos externos. O consumo excessivo de conteúdos digitais rápidos e recompensadores pode sobrecarregar áreas cerebrais responsáveis pela atenção sustentada, controle dos impulsos e autorregulação emocional.
Estudos de neuroimagem funcional demonstram que o uso exagerado de telas pode alterar o funcionamento do córtex pré-frontal, uma área crítica para a concentração, tomada de decisões e comportamento social.
Além disso, o uso noturno de telas afeta negativamente o sono, outro fator relevante para o agravamento de sintomas de TDAH.
Não. O estudo de Levelink et al. (2020) argumenta que o tempo de tela, isoladamente, não é fator determinante. O contexto familiar, o tipo de conteúdo consumido, a presença ou ausência de supervisão parental, a qualidade do sono e o nível de interação social presencial também impactam o desenvolvimento comportamental.
Isso indica que o problema não está apenas na quantidade de horas, mas na forma como as telas são utilizadas no cotidiano da criança.
Estabeleça limites claros de tempo para o uso de telas conforme a idade.
Evite exposição a dispositivos eletrônicos pelo menos duas horas antes de dormir.
Priorize conteúdos educativos assistidos em conjunto com os pais ou responsáveis.
Incentive atividades não digitais: esportes, leitura, jogos de tabuleiro, brincadeiras ao ar livre.
Busque ajuda profissional caso observe sinais persistentes de desatenção, impulsividade ou dificuldade escolar.
Tamana SK et al. (2019). Screen-time is associated with inattention problems in preschoolers: Results from the CHILD birth cohort study. PLOS ONE. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0213995
Qu et al. (2023). The association between screen time and ADHD symptoms: a meta-analysis.
Levelink et al. (2020). Screen Time, Sleep, and ADHD: Is There a Link? Journal of Attention Disorders.
A relação entre tempo de tela e sintomas de TDAH não é simplista, mas os dados mostram que o uso descontrolado pode ser um fator de risco importante, especialmente durante a infância. O papel dos pais, educadores e profissionais de saúde é fundamental para orientar o uso saudável da tecnologia e garantir que o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança não seja comprometido.
Dr. Humberto Müller
Médico Psiquiatra | CRM 2439 | RQE 883
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