Dr. Humberto Müller
Médico Psiquiatra
CRM 2439 / RQE 883
Voltar 21 de Agosto de 2025

TDAH e o uso de telas em crianças: o que a ciência já sabe?

Entenda como o uso de telas afeta as crianças e a relação das telas no aumento dos casos de TDAH - Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade.

TDAH e o uso de telas em crianças: o que a ciência já sabe?

Nos últimos anos, um fenômeno silencioso tem ganhado força no Brasil e no mundo: o crescimento expressivo do tempo que crianças e adolescentes passam em frente às telas — celulares, tablets, computadores e TVs.

Esse aumento coincide com um crescimento significativo nos diagnósticos de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), levantando uma questão importante: há uma relação causal entre esses dois fenômenos? O que a ciência tem a dizer sobre isso?

 

Quanto tempo de tela é considerado excessivo?

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que:

  • Crianças menores de 2 anos não sejam expostas a telas;

  • Crianças de 2 a 5 anos utilizem dispositivos por no máximo 1 hora diária;

  • Crianças de 6 a 10 anos limitem o tempo a, no máximo, 2 horas por dia.

Porém, diversas pesquisas indicam que muitas crianças já ultrapassam quatro ou cinco horas diárias, inclusive durante fases cruciais do desenvolvimento neurológico.

 

Telas e TDAH: evidências científicas indicam correlação

Um dos estudos mais relevantes sobre o tema foi conduzido por Tamana et al. (2019), com 2.427 crianças acompanhadas longitudinalmente. Os dados mostraram que crianças com mais de 2 horas diárias de tela apresentaram um risco até 7,7 vezes maior de desenvolver sintomas compatíveis com TDAH.

Esses sintomas incluem:

  • Dificuldade de concentração

  • Agitação motora

  • Impulsividade

  • Queda no rendimento escolar

Esses achados foram reforçados por uma meta-análise recente de Qu et al. (2023), que associou aumento de tempo de tela com sintomas de desatenção e hiperatividade, mesmo em crianças sem diagnóstico prévio de TDAH.

 

O que acontece no cérebro da criança?

O cérebro infantil ainda está em processo de maturação e é altamente influenciado por estímulos externos. O consumo excessivo de conteúdos digitais rápidos e recompensadores pode sobrecarregar áreas cerebrais responsáveis pela atenção sustentada, controle dos impulsos e autorregulação emocional.

Estudos de neuroimagem funcional demonstram que o uso exagerado de telas pode alterar o funcionamento do córtex pré-frontal, uma área crítica para a concentração, tomada de decisões e comportamento social.

Além disso, o uso noturno de telas afeta negativamente o sono, outro fator relevante para o agravamento de sintomas de TDAH.

 

As telas são as únicas responsáveis?

Não. O estudo de Levelink et al. (2020) argumenta que o tempo de tela, isoladamente, não é fator determinante. O contexto familiar, o tipo de conteúdo consumido, a presença ou ausência de supervisão parental, a qualidade do sono e o nível de interação social presencial também impactam o desenvolvimento comportamental.

Isso indica que o problema não está apenas na quantidade de horas, mas na forma como as telas são utilizadas no cotidiano da criança.

 

Recomendações práticas

  1. Estabeleça limites claros de tempo para o uso de telas conforme a idade.

  2. Evite exposição a dispositivos eletrônicos pelo menos duas horas antes de dormir.

  3. Priorize conteúdos educativos assistidos em conjunto com os pais ou responsáveis.

  4. Incentive atividades não digitais: esportes, leitura, jogos de tabuleiro, brincadeiras ao ar livre.

  5. Busque ajuda profissional caso observe sinais persistentes de desatenção, impulsividade ou dificuldade escolar.

 

Referências científicas

  • Tamana SK et al. (2019). Screen-time is associated with inattention problems in preschoolers: Results from the CHILD birth cohort study. PLOS ONE. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0213995

  • Qu et al. (2023). The association between screen time and ADHD symptoms: a meta-analysis.

  • Levelink et al. (2020). Screen Time, Sleep, and ADHD: Is There a Link? Journal of Attention Disorders.

 

Conclusão

A relação entre tempo de tela e sintomas de TDAH não é simplista, mas os dados mostram que o uso descontrolado pode ser um fator de risco importante, especialmente durante a infância. O papel dos pais, educadores e profissionais de saúde é fundamental para orientar o uso saudável da tecnologia e garantir que o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança não seja comprometido.

 


Dr. Humberto Müller

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